terça-feira, 3 de maio de 2011

TREINAMENTO

"...- Existe um antigo provérbio que diz que uma tartaruga só pode derrotar um gato se lutar como uma tartaruga e um gato; para vencer, tem que usar sua habilidade de gato. (Akira)
- Não sei se consigo vencer um vampiro, não sei se estou preparado para um desafio tão superior. (Dionísio)
- Você não tem que ficar pensando em como derrotá-lo. Durante a luta, você deve lutar como aprendeu a lutar. Não deve inventar soluções novas. Deve lutar com todas as suas forças. Nem que precise chegar a seu limite. Você deve lutar com tudo o que sabe.
- Acho que perdi um pouco de minha auto-confiança quando aquele vampiro me atingiu. Não sei mais nada. Não acredito em mais nada.
- Você sempre foi o homem mais otimista que conheço e isso sempre me deixava maluco durante as aulas. Você não está preparado para perder. Não está acostumado com a derrota. Um homem preparado para tudo tem que saber como é vencer e perder. Falhei quanto a isso durante seu treinamento. Você sempre foi muito bom durante suas lutas, nunca encontrou um desafiante capaz de derrotá-lo. Você deveria ter encontrado esse oponente há muito tempo. Nisso foi bom ter enfrentado o vampiro.
- Está dizendo que houve algo de bom na minha derrota para aquele monstro?
- Devemos sempre buscar coisas boas no que acontece de ruim. As coisas boas são boas. Aprendemos de verdade quando coisas ruins acontecem. Acontecer sempre o que é bom não nos eleva, e por vezes pode até nos estagnar. Perdemos a mobilidade da mudança e um rio continua sendo o mesmo rio. Lembre-se de que sempre existe um copo meio cheio e um copo meio vazio.
- Já até me sinto melhor depois de estar aqui conversando contigo!...
- O que o está afetando é somente o medo de enfrentar o desconhecido.
- Isso e o fato de descobrir que Irina é uma espiã, e que durante esses anos ela nunca me contou a verdade.
- Esse é um outro problema que terá que enfrentar. No momento, vamos nos concentrar em sua auto-estima. – Akira se levanta e começa a andar. – Venha, quero mostrar-lhe uma coisa.
Os dois andam um pouco. Dionísio segue Akira sem dizer uma palavra. Estar próximo de seu antigo mestre e quase um pai é extremamente reconfortante. Saber que pode confiar cegamente em alguém é muito acolhedor e era disso que ele precisava.
Akira para e pergunta:
- O que você vê ao seu redor?
Dionísio para, observa tudo o que o rodeia e responde.
- Árvores, pássaros e uma cachoeira.
- O que vê atrás daquelas árvores?
- Prédios.
- Exatamente. Antes, há alguns poucos anos atrás, aqui não havia prédios, mas o homem, com todo o aumento demográfico surpreendente, construiu alguns prédios aqui e ali. O homem achou que seria interessante construí-los por aí. Mas mesmo assim, as árvores continuam, aquela pequena cachoeira ainda está ali. Os pássaros ainda fazem seus ninhos nas árvores.
- Isso porque os homens não derrubaram as árvores nem aqueles morros ali.
Akira se vira para Dionísio e coloca as mãos em seus ombros.
- Seu otimismo ainda continua aí; ele não sumiu, mas está dentro de você, só está adormecido. Os homens não destruíram a natureza a nossa volta, pois sabem que ela faz com que eles vivam plenamente. Eu sei que ainda existe otimismo em você. Faça como os homens de que estamos falando aqui, não destrua aquilo que o faz viver plenamente. Não destrua aquilo que faz com que você seja o Dionísio que conhecemos. – Akira dá as costas para ele e recomeça a andar. – Você cresceu, acaba de conhecer como é ser derrotado, mas a derrota não pode destruir o otimismo que sempre foi parte de você. Você tem que ser mais forte. Não pode ser tão otimista a ponto de se tornar confiante demais. Tem que ser humilde, você tem que ter a humildade que irá equilibrar o otimismo exagerado. Foi a falta de humildade que o fez perder, não a incapacidade de derrotar o vampiro. Você tem que encontrar o caminho do meio, digo, tem que reencontrar o caminho do meio: o caminho que perdeu quando se mudou para o outro lado do mundo e se rendeu a um mundo que o deixou fascinado.
- Acredita que a culpa é do Ocidente?
- A culpa é toda sua! O Ocidente só lhe mostrou algumas coisas boas, e você se deixou levar pela futilidade, esquecendo como é viver em harmonia com seu interior. Seu exterior se deixou levar por algumas facilidades, enquanto seu interior ficou preso sem chance de se manifestar.
- Entendo. – Dionísio continua atrás de Akira, olhando para o chão. – Tem mais alguma coisa para me dizer?...
- Tenho várias! – os dois começam a sorrir. – O que mais quer que eu diga?
- Gosto de ouvi-lo. Isso faz com que eu sinta paz.
Akira encara Dionísio e por um instante os dois ficam quietos. Com uma velocidade surpreendente, Akira soca o peito de Dionísio, que consegue se defender. Akira sorri e o soca novamente com a mesma rapidez, mas desta vez a defesa não acontece. Dionísio cai a uns três metros de onde estava e para instantaneamente de respirar. O velho mestre se aproxima e vê seu mais querido pupilo se debatendo no chão e pedindo ajuda; ele o levanta e acerta outro soco em suas costas, fazendo-o voltar a respirar. Com um soluço que quase o faz vomitar, Dionísio se ajoelha no chão e respira profundamente.
- O que acabou de acontecer?
- Definitivamente é mesmo grave! Não farei outro teste como esse.
- O que acabou de acontecer?
- Você sempre conseguiu se defender de todos os golpes desferidos dessa maneira. Sua harmonia com o todo está abalada. Você precisa começar a aprender certas virtudes das artes marciais que deixei de lado em seu treinamento.
- Não consegui perceber seu segundo ataque.
- Exatamente. Ao conseguir se defender do primeiro golpe, a arrogância tomou conta de todo o seu ser e você achou que não precisava de mais nada, que pode tudo; dessa forma, você não estava preparado para o segundo golpe, pois ficou somente olhando para meus olhos.
- E esqueci de todo o resto.
- Você estava fixado em meu olhar.
- E o que isso quer dizer?
- Você sabe.
Dionísio se levanta e respira fundo. Anda um pouco, olha tudo o que está a seu redor; olha para Akira, observa os pássaros voando e fixa o olhar em um ninho que exibe dois passarinhos que piam enlouquecidamente. Um dos pássaros cai do ninho, mas, como a árvore não é muito alta, ele não se machuca e continua a se debater. Dionísio pega o filhote, sobe na árvore e o coloca no ninho; ele torna a cair e Dionísio o coloca no ninho novamente. A mãe dos filhotes chega e começa a alimentá-los. Dionísio volta para perto de Akira e faz reverência. Akira coloca a mão nos ombros dele e diz:
- Ouça todos os sons e observe tudo, repare em tudo a seu redor, não se prenda a um simples olhar. Observe o corpo de seu oponente, focalize a atenção em seu alvo por completo, não deixe nada tirar sua atenção. Encarar-me não quer dizer só ver meus olhos. Quando encarar alguém, perceba todo o seu corpo.
‘Tenha em mente a sintonia com tudo que está a sua volta. Quando sua concentração começar a perder o foco, é porque ainda não está completamente preparado para enfrentar o desafio plenamente. Seu corpo deve estar totalmente comprometido com o que está fazendo no momento. Sinta como se o momento presente fosse o mais importante, e não pense em mais nada a não ser em enfrentar o problema de frente. Com o máximo de força possível, com o máximo de empenho possível. Nada pode perturbar a ligação entre você e aquilo que está fazendo no momento. Fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo com perfeição é algo que necessita preparo, e sei que você consegue fazer até mais de três. Tudo só depende de você, de mais ninguém.’

‘Você sabe por que eu o atingi da segunda vez?
- Sim, Akira.
- Pelo jeito, terei que voltar a ser seu Sensei.
- Sim, Sensei."

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